segunda-feira, 29 de junho de 2009

Abertura

Ao momento presente –
Caio Fernando Abreu (...)

Não há memória, também.
Você nunca o viu antes.
Tenha a forma que tiver — um bebê, um cristal, um diamante, uma faca, uma pêra, um postal, um ET, uma moça, um patim — ele não se parece a nada que você tenha visto antes.
Só está ali, à sua frente, como um punhado de argila à espera de que você o tome nas mãos para dar-lhe uma forma qualquer — um bebê, um cristal, um diamante e assim por diante.
E se você não o fizer, ele se fará por si mesmo, o momento presente.
Deixe que ele respire, como uma coisa viva. Respire você também, como essa coisa viva que você é.
Contemple-o de frente, igual àquela personagem de Clarice Lispector contemplando o búfalo atrás das grades da jaula do jardim zoológico.
Você pode estender a mão para ele, tentar uma carícia desinteressada.
Mas será melhor não fazer gesto algum.
Ele não reagirá, mesmo todo pulsante, ali à sua frente.
Respire, respire. Conte até dez, até vinte talvez.
Daqui a pouco ele vai começar a se transformar em outra coisa, o momento presente.
Qualquer coisa inteiramente imprevisível? Você não sabe, eu não sei, ele não sabe: os momentos presentes não têm o controle sobre si mesmos.
Se o telefone tocar, atenda. Se a campainha chamar, abra a porta. Quando estiver desocupado outra vez, procure-o novamente com os olhos.
Ele já não estará lá. Haverá outro em seu lugar. E então, como a um bebê ou a um cristal, tome-o nas mãos com muito cuidado.
Ele pode quebrar, o momento presente.
Experimente então dizer “eu te amo”. Ou qualquer coisa assim, para ninguém.